O que precisa funcionar antes de colocar um agente de IA em um processo
Um agente multiplica o processo que encontra, não o conserta. As quatro coisas que precisam estar em ordem antes e as três que não são necessárias.

Ignacio Puig Moreno
Co-fundador · Negócios
Acontece comigo com frequência: me pedem para colocar um agente de IA em um processo que nem sequer funciona bem com gente. É colocar o carro na frente dos bois, e sai caro de um jeito bem específico. O processo não é consertado. É acelerado.
Por que um agente não conserta um processo quebrado?
Porque ele faz a mesma coisa que o time faz, mais vezes e mais rápido. Se hoje se perdem consultas na etapa da transferência, elas vão continuar se perdendo, só que a uma velocidade em que ninguém as vê passar e sem ficarem na caixa de entrada de uma pessoa que em algum momento perceberia.
Um agente clona um critério. Sem critério, ele clona a improvisação e a torna consistente, que é a pior versão possível: um erro que antes acontecia às vezes agora acontece sempre igual.
O que quer dizer que o processo "funciona com pessoas"?
Não quer dizer perfeito nem certificado. Quer dizer duas coisas que dá para verificar: que alguém consiga explicá-lo de ponta a ponta sem hesitar, e que duas pessoas diferentes do time o executem de forma parecida.
Existe um teste de vinte minutos. Pedir separadamente a duas pessoas que fazem essa tarefa todos os dias que contem como fazem. Se as duas versões diferem nos passos, não existe um processo: existem dois costumes convivendo. Automatizar isso significa escolher um dos dois sem ter decidido, e perceber três meses depois.
O que precisa estar pronto antes de começar?
Quatro coisas, e nenhuma é tecnológica.
Um dono do processo com nome e sobrenome. A pessoa que pode decidir como um caso fora do comum é resolvido sem pedir permissão a ninguém. Nos projetos que empacam quase nunca falta tecnologia: falta alguém com autoridade para responder perguntas de critério no mesmo dia.
O critério escrito, não a sequência. A sequência é a parte fácil e quase sempre já está na cabeça de todo mundo. O que precisa ser escrito é o que se faz quando o caso não é o típico: o que conta como uma consulta bem resolvida, quando transferir para uma pessoa, quando parar o acompanhamento, o que responder quando alguém pergunta por algo que a empresa não vende.
O dado em um sistema. Se o status de um pedido só pode ser sabido perguntando para alguém que olha um WhatsApp, nenhum agente vai conseguir responder isso. O passo anterior não é comprar um sistema novo: é o dado estar registrado no que já existe.
Um número de partida. Quantas consultas entram por dia, que porcentagem recebe resposta, quanto demora a primeira. Dá para contar na mão em uma semana. Sem isso, a discussão sobre se funcionou é resolvida por impressão, e a impressão sempre dá razão a quem fala mais alto.
Antes de começar
Quantas das quatro estão prontas?
Se a dúvida é o que você já tem funcionando, existe uma ferramenta que dá nome a isso:
O que você já tem, em três perguntasE o que não precisa ser feito antes?
Três coisas que travam projetos que já estavam prontos para começar.
Não é preciso trocar de sistema. Nem o CRM, nem o ERP, nem o software de gestão, nem a planilha onde hoje se anota tudo. O agente é montado sobre o que já existe, e uma migração é um projeto inteiro que pode demorar mais do que a implementação completa. Se o sistema atual é ruim, vai continuar ruim com agente ou sem agente: trocá-lo é uma decisão à parte, não um requisito prévio.
Não é preciso documentar a empresa inteira. Basta o trecho que vai ser automatizado. Um manual de processos completo é um projeto de meses que quase sempre fica desatualizado antes de servir para alguma coisa.
Não é preciso que o processo esteja ótimo. O corte é explicável e repetível, não perfeito. Se a régua é a perfeição, nunca se começa.
E se o processo ainda não existe?
Então a ordem é outra e é mais barata do que parece: fazer na mão e a sério durante algumas semanas, com uma pessoa e uma planilha, anotando cada caso que não encaixa.
Essas semanas não são tempo perdido, são o levantamento. Descobrir uma exceção com uma pessoa custa uma conversa desconfortável. Descobrir com um agente já atendendo tráfego real custa um cliente.
Em que momento se otimiza?
Depois de organizar, e essa é a parte que quase ninguém aproveita. O pedido mais comum quando o processo já está escrito é que o agente faça exatamente o mesmo que a pessoa fazia, passo a passo.
E boa parte desses passos existe porque um humano precisa lembrar de algo, esperar outra pessoa responder ou passar um dado de um sistema para outro. Nada disso é necessário quando quem executa consulta os dois sistemas ao mesmo tempo e não esquece.
Exemplo ilustrativo
Os passos que desaparecem
12 passos
- 01
Ver que entrou uma mensagem nova
o executor pede - 02
Ler a consulta e entender o que ela pede
o processo pede - 03
Perguntar o que busca, para qual espaço e em que região
o processo pede - 04
Anotar as respostas em um papel ou guardar de memória
o executor pede - 05
Procurar no sistema se essa pessoa já era cliente
o processo pede - 06
Copiar os dados da conversa para o sistema
o executor pede - 07
Decidir se a consulta qualifica e com que prioridade
o processo pede - 08
Descobrir quem está disponível nessa região hoje
o processo pede - 09
Encaminhar a conversa para o vendedor que corresponde
o executor pede - 10
Lembrar de fazer o acompanhamento em 48 horas úteis
o executor pede - 11
Escrever a mensagem de acompanhamento
o processo pede - 12
Marcar a consulta como fria se nunca respondeu
o executor pede
Doze passos, e nenhum é opcional quando do outro lado há uma pessoa sozinha com o telefone na mão.
Exemplo ilustrativo de um processo comercial típico, não a medição de um cliente. O ponto não é o número: é que metade dos passos de quase qualquer processo manual existe para compensar os limites de quem o executa.
Organizar primeiro e otimizar depois não é burocracia: é a única coisa que mostra quais passos eram do processo e quais eram do corpo humano que o executava.
Um processo organizado sem agente continua funcionando, mais devagar. Um agente sobre um processo desorganizado multiplica a desordem, e ainda faz isso a uma velocidade em que ninguém consegue mais olhar.
Perguntas frequentes
Quanto tempo leva organizar um processo antes de automatizá-lo?
Depende do trecho, não do tamanho da empresa. Para uma tarefa pontual, como qualificar e encaminhar as consultas que chegam, costumam bastar duas ou três sessões de uma hora com quem faz isso todo dia, mais uma semana olhando conversas reais. Se a organização vira um projeto de meses, o escopo foi mal cortado.
É preciso ter um software ou sistema específico antes de começar?
Um novo, não. O que é preciso é que o dado de que o processo depende viva em algum sistema que possa ser consultado de fora, e saber cedo se esse sistema permite isso, com quais permissões e a que custo, porque varia bastante entre fornecedores.
Vale organizar o processo com o mesmo fornecedor que depois implementa o agente?
Costuma ser o mais rápido, porque as perguntas desconfortáveis aparecem durante o levantamento. O que vale é que essa etapa tenha entregável próprio: o processo escrito precisa ficar nas mãos da empresa e servir mesmo que o projeto de agentes não continue.

Ignacio Puig Moreno · Co-fundador · Negócios, StudioChat
Quer ver agentes assim trabalhando para a sua equipe?
Fale conosco agora